Ninguém
sabia quando
chegava a
Santiago de
Chile e o
quê faria
ali um
Presidente
dos Estados
Unidos, onde
um dos seus
antecessores
tinha
cometido o
doloroso
crime de
promover o
derrocamento
e a morte
física do
seu heróico
Presidente,
torturas
horríveis e
o
assassinato
de milhares
de chilenos.
Tentava por
minha parte,
ao mesmo
tempo, de
acompanhar
as notícias
que chegavam
da tragédia
do Japão e
da brutal
guerra
desencadeada
contra a
Líbia,
enquanto o
ilustre
visitante
proclamava a
“Aliança
Igualitária”
na região do
mundo onde
pior está
distribuída
a riqueza.
Entre tantas
coisas,
fiquei um
tanto
descuidado e
não assisti
nada do
opíparo
banquete de
centenas de
pessoas com
as iguarias
com que a
natureza
dotou os
mares, que
de ter-se
realizado
num
restaurante
de Tóquio,
cidade onde
se paga até
300 mil
dólares por
um atum
fresco de
barbatana
azul, seriam
arrecadados
até 10
milhões de
dólares.
Era
demasiado
trabalho
para um
jovem da
minha idade.
Escrevi uma
breve
Reflexão e
dormi depois
longas
horas.
Hoje de
manhã eu
estava
fresco. Meu
amigo não
chegaria a
El Salvador
até depois
do meio-dia.
Solicitei
telexes,
artigos da
Internet e
outros
materiais
recém-chegados.
Vi, em
primeiro
lugar, que
por minha
culpa os
telexes lhe
tinham dado
importância
àquilo que
eu disse
relativamente
ao meu cargo
de Primeiro
Secretário
do Partido,
e o
explicarei
com a maior
brevidade
possível.
Concentrado
na “Aliança
Igualitária”
de Barack
Obama, um
assunto de
tanta
relevância
histórica ―falo
a sério―,
nem sequer
me lembrei
que no
próximo mês
será
realizado o
Congresso do
Partido.
Minha
atitude com
relação ao
tema foi
elementarmente
lógica. Ao
compreender
a gravidade
da minha
saúde, fiz o
que ao meu
ver não foi
necessário
quando tive
o doloroso
acidente em
Santa Clara;
após a queda
o tratamento
foi duro,
mas a vida
não estava
em perigo.
Todavia,
quando
escrevi a
Proclama de
31 de julho
foi evidente
para mim que
o estado de
saúde era
sumamente
crítico.
Depus logo
todas minhas
funções
públicas,
acrescentando-lhe
à Proclama
algumas
instruções
para
oferecer
segurança e
tranqüilidade
à população.
Não era
necessária a
renúncia, em
concreto, de
cada um dos
meus cargos.
A função
mais
importante
para mim era
a de
Primeiro
Secretário
do Partido.
Por
ideologia e
por
princípio,
em uma etapa
revolucionária,
a esse cargo
político
corresponde
a máxima
autoridade.
O outro
cargo que
exercia era
o de
Presidente
do Conselho
de Estado e
do Governo,
eleito pela
Assembléia
Nacional.
Para ambos
cargos
existia um
substituto,
e não em
virtude de
vínculo
familiar,
que jamais
considerei
fonte de
direito, mas
por
experiência
e méritos.
A patente de
Comandante-em-Chefe
me fora
outorgada
pela própria
luta, uma
questão de
casualidade
mais do que
de méritos
pessoais. A
própria
Revolução,
em ulterior
etapa,
destinou
corretamente
a chefia de
todas as
instituições
armadas ao
Presidente,
uma função
que em minha
opinião deve
corresponder-se
com a de
Primeiro
Secretário
do Partido.
Entendo que
assim deve
ser num país
que, como
Cuba, tem
tido que
encarar um
obstáculo
tão
considerável
como o
império
criado pelos
Estados
Unidos.
Decorreram
quase 14
anos desde o
anterior
Congresso do
Partido, que
coincidiram
com o
desaparecimento
da URSS e do
Campo
Socialista,
o Período
Especial e
minha
própria
doença.
Quando
progressiva
e
parcialmente
recuperei a
saúde, nem
sequer me
passou pela
mente a
idéia ou a
necessidade
de proceder
ao
formalismo
de fazer
renúncia
expressa de
cargo algum.
Aceitei
nesse
período a
honra da
eleição como
Deputado à
Assembléia
Nacional,
que não
exigia da
presença
física, e
com a que
podia
partilhar
idéias.
Como
disponho de
mais tempo
do que nunca
antes para
observar,
informar-me,
e expor
determinados
pontos de
vista,
cumprirei
modestamente
meu dever de
lutar pelas
idéias que
tenho
defendido ao
longo da
minha
modesta
vida.
Peço aos
leitores me
desculpem
pelo tempo
consumido
nesta
explanação,
que as
circunstâncias
mencionadas
me obrigaram
a levar a
cabo.
O assunto
mais
importante,
não o
esqueço, é a
insólita
aliança
entre
milionários
e esfomeados
que propõe o
ilustre
Presidente
dos Estados
Unidos.
Os bem
informados -aqueles
que conhecem,
por exemplo,
da história
deste
hemisfério,
suas lutas,
ou
inclusive,
só a do povo
de Cuba
defendendo a
Revolução
contra o
império que,
como o
próprio
Obama
reconhece,
tem durado
mais tempo
do que “sua
própria
existência”-,
com certeza
ficarão
espantados
com a
proposta
dele.
Sabe-se que
o atual
Presidente
consegue
alinhavar
bem as
palavras,
circunstâncias
que, unidas
à crise
econômica,
ao crescente
desemprego,
às perdas de
moradias, e
à morte de
soldados
norte-americanos
nas guerras
estúpidas de
Bush,
ajudaram-no
a obter a
vitória.
Depois de
observá-lo
bem, não me
surpreenderia
que fosse o
autor do
ridículo
título com
que foi
batizada a
chacina na
Líbia:
“Odisséia do
Amanhecer”,
que fez
tremer a
poeira dos
restos de
Homero e dos
que
contribuíram
a fraguar a
lenda dos
famosos
poemas
gregos,
embora
admito que,
talvez, o
título fosse
uma criação
dos chefes
militares
que
manipulam os
milhares de
armas
nucleares
com as quais
uma simples
ordem do
Prêmio Nobel
da Paz pode
determinar o
fim da nossa
espécie.
Do seu
discurso aos
brancos,
pretos,
índios,
mestiços e
não mestiços,
crentes e
não crentes
das Américas,
pronunciado
no Centro
Cultural
Palácio da
Moeda, as
embaixadas
dos Estados
Unidos
distribuíram
cópia fiel
em todas
partes, e
foi
traduzido e
divulgado
por Chile
TV, CNN, e
imagino que
por outras
emissoras em
outras
línguas.
Foi ao
estilo
daquele que
proferiu no
primeiro ano
de seu
mandato, em
El Cairo, a
capital de
seu amigo e
aliado Hosni
Mubarak,
cujas
dezenas de
milhares de
milhões de
dólares
subtraídos
ao povo é de
supor que
era do
conhecimento
do
Presidente
dos Estados
Unidos.
“… O Chile
tem
demonstrado
que não
temos porquê
ficar
divididos
por raças
[…] ou
conflitos
étnicos”,
assegurou;
deste modo o
problema
americano
foi apagado
do mapa.
Quase logo
insiste
obsessivamente
em que
“…este
maravilhoso
lugar onde
nos
encontramos,
a poucos
passos do
lugar em que
o Chile
perdeu sua
democracia
há várias
décadas…”
Tudo menos
pronunciar o
golpe de
Estado, o
assassinato
do
pundonoroso
general
Schneider,
ou o nome
glorioso de
Salvador
Allende,
como se o
governo dos
Estados
Unidos não
tivesse
absolutamente
nada a ver.
O grande
poeta Pablo
Neruda, cuja
morte foi
acelerada
pelo golpe
traiçoeiro,
foi sim
pronunciado
em mais de
uma ocasião,
neste caso
para afirmar
de forma
belamente
poética
nossas
“estrelas”
primordiais
são a “luta”
e a “esperança”.
Ignora Obama
que Pablo
Neruda era
comunista,
amigo da
Revolução
Cubana,
grande
admirador de
Simón
Bolivar que
renasce cada
cem anos, e
inspirador
do
Guerrilheiro
Heróico
Ernesto
Guevara?
Fiquei
admirado
quase desde
o começo da
sua mensagem,
dos
profundos
conhecimentos
históricos
de Barack
Obama. Algum
assessor
irresponsável
esqueceu
explicar-lhe
que Neruda
era
militante do
Partido
Comunista do
Chile.
Depois
doutros
parágrafos
insignificantes
reconhece
que: “Sei
que não sou
o primeiro
presidente
dos Estados
Unidos em
prometer um
novo
espírito de
cooperação
com os
nossos
vizinhos
latino-americanos.
Sei que às
vezes, os
Estados
Unidos têm
tomado por
descontada
esta região.”
“… A América
Latina não é
o velho
estereótipo
de uma
região em
conflito
perpétuo nem
apanhada por
ciclos
intermináveis
de pobreza.”
“Na Colômbia,
grandes
sacrifícios
por cidadãos
e forças da
segurança
têm
restaurado
um nível de
segurança
que não se
via há
décadas.”
Ali jamais
houve
narcotráfico,
paramilitares
nem
cemitérios
clandestinos.
No seu
discurso a
classe
operária não
existe, nem
camponeses
sem terras,
também não
os
analfabetos,
a
mortalidade
infantil ou
materna, os
que perdem a
vista, ou
são vítimas
de parasitas
como a
doença de
chagas ou de
enfermidades
bacterianas
como o
cólera.
“Desde
Guadalajara
até Santiago
e São Paulo,
uma CLASSE
MÉDIA está
exigindo
mais de si
própria e
mais do seu
governo”,
expressa.
“Quando um
golpe de
Estado em
Honduras
ameaçou o
progresso
democrático,
os países do
hemisfério
invocaram
unanimemente
a Carta
Democrática
Inter-americana,
o que ajudou
a sentar as
bases do
retorno ao
estado de
direito.”
A verdadeira
razão do
maravilhoso
discurso de
Obama se
explica de
forma
indiscutível
a meados da
sua mensagem
e com suas
próprias
palavras: “A
América
Latina só se
tornará mais
importante
para os
Estados
Unidos,
especialmente
para nossa
economia.
[…]
Compramos
mais dos
seus
produtos e
serviços do
que nenhum
outro país,
e investimos
mais nesta
região do
que nenhum
outro país.
[…]
exportamos
mais de três
vezes para a
América
Latina do
que
exportamos
para a
China.
Nossas
exportações
para esta
região…
aumentam
mais rápido
do que
nossas
exportações
para o resto
do mundo…”.
Pode-se
talvez
deduzir
disto que
“quanto mais
próspera for
a América
Latina, mais
prósperos
serão os
Estados
Unidos.”
Dedica mais
adiante
insípidas
palavras aos
fatos reais:
“Mas sejamos
francos e
admitamos
também […]
que o
progresso do
continente
americano
não é
suficientemente
rápido. Não
para os
milhões que
sofrem a
injustiça da
extrema
pobreza. Não
para as
crianças nos
bairros e
nas favelas,
que só
querem as
mesmas
oportunidades
que têm as
outras.”
“O poder
político e
econômico
com
demasiada
freqüência
está
concentrado
nas mãos de
poucos, em
lugar de
servir à
maioria”,
expressou
textualmente.
“Não somos a
primeira
geração que
encara esses
desafios. Há
exatamente
50 anos, o
Presidente
John F.
Kennedy
propôs uma
ambiciosa
Aliança para
o Progresso.”
“O desafio
perante o
Presidente
Kennedy
persiste:
‘construir
um
hemisfério
em que todos
[os povos]
possam ter a
esperança de
um padrão de
vida
apropriado,
em que todos
possam viver
sua vida com
dignidade e
liberdade.”
Resulta
incrível que
venha agora
com essa
história tão
burda que
constitui um
insulto à
inteligência
humana.
Não tem mais
alternativa
do que
mencionar
entre as
grandes
calamidades
um problema
que se
origina no
colossal
mercado dos
Estados
Unidos e com
armas
homicidas
desse país:
“As gangues
de
criminosos e
narcotraficantes
não são
apenas uma
ameaça
contra a
segurança
dos cidadãos.
São uma
ameaça
contra o
desenvolvimento
porque
afugentam o
investimento
de que
precisa a
economia
para
prosperar. E
são uma
ameaça
direta
contra a
democracia
porque
alentam a
corrupção
que socava
as
instituições
desde
dentro.”
Mais adiante
acrescenta a
contragosto:
“Porém nunca
eliminaremos
o atrativo
dos cartéis
e das
gangues a
não ser que
também
encaremos as
forças
sociais e
econômicas
que
alimentam a
criminalidade.
Precisamos
de chegar
aos jovens
vulneráveis
antes que
recorram às
drogas e ao
crime.”
“Como
Presidente,
tenho
deixado em
claro que
nos Estados
Unidos
aceitamos
nossa
responsabilidade
pela
violência
gerada pelas
drogas. A
demanda de
drogas,
incluída
aquela nos
Estados
Unidos,
impulsiona
esta crise.
Por isso
formulamos
uma nova
estratégia
para o
controle de
drogas que
está focada
na redução
da demanda
de drogas
através da
educação, da
prevenção e
do
tratamento.”
O que ele
não disse é
que em
Honduras 76
pessoas por
cada 100 mil
habitantes
morrem por
causa da
violência,
19 vezes
mais do que
em Cuba,
onde
praticamente,
apesar da
proximidade
dos Estados
Unidos, tal
problema
apenas
existe.
Após umas
quantas
tolices pelo
estilo,
sobre as
armas com
destino ao
México que
estão
confiscando,
um Acordo
Trans-pacífico,
o Banco
Inter-americano
de
Desenvolvimento,
com o qual
ele diz que
se esmeram
para
aumentar o
“Fundo de
Crescimento
com micro
financiamento
para as
Américas” e
prometer a
criação de
novas “Vias
à
Prosperidade”
e outros
termos
altissonantes
que
pronuncia em
inglês e
espanhol,
volta às
suas
peregrinas
promessas de
unidade
hemisférica
e tenta
impressionar
os ouvintes
com os
riscos da
mudança
climática.
Obama
acrescenta:
“E se alguém
duvida da
urgência da
mudança
climática,
basta que
olhem dentro
do
continente
americano,
desde as
fortes
tormentas do
Caribe até o
descongelamento
de geleiras
nos Andes e
a perda de
florestas e
terras de
cultura em
toda a
região.” Sem
o valor de
reconhecer
que seu país
é o máximo
responsável
dessa
tragédia.
Explica que
se orgulha
de anunciar
que “…os
Estados
Unidos estão
trabalhando
com
parceiros na
região,
entre eles o
setor
privado,
para
aumentar em
100,000 o
número de
estudantes
dos Estados
Unidos na
América
Latina, e em
100,000 o
número de
estudantes
da América
Latina que
estudam nos
Estados
Unidos.” Já
se sabe o
que custa
estudar
Medicina ou
outra
carreira
naquele
país, e o
roubo
descarado de
cérebros que
praticam os
Estados
Unidos.
Todo seu
palavreado
para
concluir com
um louvor à
OEA, a qual
Roa
qualificou
como
“Ministério
de Colônias
Ianque”,
quando em
memorável
denúncia por
parte de
nossa Pátria
nas Nações
Unidas,
informou que
o governo
dos Estados
Unidos tinha
atacado
nosso
território a
15 de abril
de 1961 com
bombardeiros
B-26
pintados com
insígnias
cubanas; um
fato
desvergonhado
que dentro
de 23 dias
completará
50 anos.
Dessa forma
acreditou
que tudo
estava
plenamente
prestes para
proclamar o
direito a
subverter a
ordem no
nosso país.
Confessa
paladinamente
que estão
“permitindo
que os
estadunidenses
enviem
remessas
para dar-lhes
certa
esperança
econômica a
pessoas em
toda Cuba,
como também
mais
independência
das
autoridades.”
“…continuaremos
procurando
maneiras de
aumentar a
independência
do povo
cubano, que
tem direito
à mesma
liberdade
que têm
todos os
outros neste
hemisfério.”
Depois
reconhece
que o
bloqueio
prejudica
Cuba, priva
a economia
de recursos.
Por que não
reconhece
que as
intenções de
Eisenhower,
e o objetivo
declarado
dos Estados
Unidos
quando o
aplicou, era
render por
fome o povo
de Cuba?
Por que se
mantém? A
quantas
centenas de
milhares de
milhões de
dólares
ascende a
indenização
que os
Estados
Unidos devem
pagar ao
nosso país?
Por que
mantêm em
prisão os 5
Heróis
antiterroristas
cubanos? Por
que não se
aplica a Lei
de Ajuste
para todos
os
latino-americanos
em vez de
permitir que
milhares
deles
resultem
mortos ou
feridos na
fronteira
imposta ao
México
depois de
arrebatar-lhe
mais da
metade do
seu
território?
Peço-lhe ao
Presidente
dos Estados
Unidos que
me desculpe
pela
franqueza.
Não albergo
sentimentos
hostis para
com ele ou
seu povo.
Cumpro com o
dever de
expor aquilo
que penso de
sua “Aliança
Igualitária”.
Nada
ganharão os
Estados
Unidos ao
criar e
encorajar o
ofício de
mercenários.
Posso
garantir-lhe
que os
melhores e
mais
preparados
jovens do
nosso país
formados na
Universidade
de Ciências
Informáticas
conhecem
muito mais
de Internet
e computação
do que o
Prêmio Nobel
e Presidente
dos Estados
Unidos.
Fidel Castro
Ruz
22 de março
de 2011
21h17