“A Bolívia considera que o
desenvolvimento de políticas e esquemas de cooperação que tenham
por objetivo a expansão dos biocombustíveis no Hemisfério
Ocidental pode afetar e incidir na disponibilidade de alimentos
e no aumento de seus preços, no incremento do desmatamento, no
deslocamento da população pela demanda de terras, e, por
conseguinte a repercussão no aumento da crise alimentar,
afetando diretamente as pessoas com rendas baixas, sobretudo às
economias mais pobres dos países em desenvolvimento. O Governo
boliviano a tempo de reconhecer a necessidade da procura e do
uso de fontes alternativas de energia que sejam amigáveis com a
natureza, tais como a energia geotérmica, a solar, a eólica, e
os pequenos e medianos planos hidrelétricos, expõe uma visão
alternativa que se baseia em viver bem e em harmonia com a
natureza, para desenvolver políticas públicas visando a promoção
de energias alternativas seguras que garantam a preservação do
planeta, nossa ‘mãe terra’.”
Tenha-se presente, ao fazer a
análise da nota da Bolívia, que os Estados Unidos e o Brasil são
os maiores produtores de biocombustíveis no mundo, ao qual se
opõe um crescente número de pessoas no planeta, cuja resistência
começou a crescer desde os escuros dias de George W. Bush.
Os assessores de Obama publicaram
pela Internet, em inglês, sua versão da entrevista do presidente
dos Estados Unidos com os jornalistas em Porto Espanha. Num
momento da entrevista afirmou:
“Para mim foi interessante – e
conhecia isto de maneira abstrata, porém era interessante em
termos específicos – poder escutar a estes líderes que quando
falavam de Cuba referiam-se muito especificamente aos milhares
de médicos de Cuba que estão espalhados por toda a região, e
dois quais estes países dependem grandemente. E isto é um
recordatório para nós nos Estados Unidos de que se nossa única
interação com muitos destes países é a luta contra a droga, se
nossa única interação é militar, então é possível que não
estejamos a desenvolver conexões que com o tempo possam aumentar
nossa influência e ter um efeito benéfico quando tenhamos
necessidade de fazer com que na região avancem políticas de
nosso interesse.
“Acho que por isso é tão
importante que para nossa interação não apenas aqui no
hemisfério, mas também em todo o mundo sejamos capazes de
reconhecer que nosso poderio militar é apenas uma parte de nosso
poder, e que temos que utilizar nossa diplomacia e ajuda para o
desenvolvimento de maneira mais inteligente, para que os povos
possam ver melhoras concretas e práticas na vida das pessoas
comuns a partir da política exterior dos Estados Unidos.”
Jornalista Jake: “Muito obrigado,
senhor Presidente. Você pôde escutar aqui muitos líderes da
América Latina que desejam que os Estados Unidos ponham fim ao
embargo a Cuba. Você disse que é uma influência importante que
não deve ser eliminada. Contudo em 2004 você sim apoiou o fim do
embargo. Você disse que não tinha conseguido elevar os níveis de
vida, que tinha apertado aos inocentes e que era a altura de que
reconhecêssemos que esta política em particular fracassara.
Pergunto-me o que fez com que o senhor mudasse de opinião a
respeito do embargo.”
Presidente: “Bom, parece-me que o
2004 ficou milhares de anos atrás. O que é que eu fazia em
2004?”
Periodista Jake: “Postulado para o
Senado.”
Presidente: “…O fato de Raúl
Castro dizer que está disposto a que seu Governo converse com o
nosso não apenas sobre o fim do embargo, mas também sobre outros
temas como os direitos humanos, os presos políticos, esse é um
sinal de avanço.
“…Há algumas coisas que o Governo
cubano poderia fazer. Eles poderiam libertar presos políticos;
poderiam reduzir o imposto às remessas em conformidade com as
políticas que temos aplicado ao permitir às famílias de
cubano-americanos enviar remessas, porque resulta que Cuba impõe
um enorme imposto, eles tiram grandes lucros. Esse seria um
exemplo de cooperação onde ambos os governos estariam a
trabalhar para ajudar a família cubana e aumentar o nível de
vida em Cuba.”
Sem dúvidas o Presidente
interpretou mal a declaração de Raúl.
Quando o Presidente de Cuba afirma
que está disposto a discutir um tema qualquer com o Presidente
dos Estados Unidos, expressa que não teme abordar qualquer
assunto. É uma demonstração de valentia e confiança nos
princípios da Revolução. Ninguém deve ficar surpreendido quando
falou de indultar os sancionados em março de 2003 e enviá-los
todos para os Estados Unidos, caso esse país estiver disposto a
libertar os Cinco Heróis antiterroristas cubanos. Aqueles, como
mesmo aconteceu com os mercenários de Girón, estão ao serviço de
uma potência estrangeira que ameaça e bloqueia nossa Pátria.
Por outro lado, a expressão de que
Cuba impõe um “enorme imposto” e “obtém enormes lucros” é uma
tentativa de seus conselheiros para semear discórdia e fazer com
que os cubanos se dividam. Todos os países cobram determinadas
cifras pelas transferências de divisas. Se são dólares, ainda
com mais razão devemos fazê-lo, porque é a moeda do Estado que
nos bloqueia. Nem todos os cubanos têm familiares no exterior
que enviem remessas. Redistribuir uma parte relativamente
pequena em benefício dos mais necessitados de alimentos,
medicamentos e de outros bens é absolutamente justo. Nossa
Pátria não tem o privilégio de converter em divisas as notas que
saem das tipografias do Estado, que muitas vezes os chineses têm
chamado “moeda sucata”, como já repeti em várias ocasiões e tem
sido uma das causas da atual crise econômica. Com que dinheiro
os Estados Unidos salva seus bancos e multinacionais endividando
pela sua vez as futuras gerações de norte-americanos? Obama
estaria disposto a discutir sobre esses temas?
Daniel Ortega falou muito claro
quando lembrou sua primeira conversa com Carter, que hoje repito
novamente:
“Tive a oportunidade de me
encontrar com o presidente Carter e quando me dizia que agora
que tinha saído da tirania dos Somoza, que o povo nicaragüense
tinha derrubado a tirania dos Somoza, era a altura ‘de a
Nicarágua mudar.’ Eu lhe disse: ‘Não, Nicarágua não tem que
mudar, vocês são os que têm que mudar; Nicarágua jamais invadiu
os Estados Unidos; Nicarágua jamais minou os portos dos Estados
Unidos; Nicarágua não lançou uma pedra contra a nação
norte-americana; Nicarágua não impôs governos nos Estados
Unidos, são vocês os que têm que mudar, não os nicaragüenses.’”
Na entrevista coletiva e nas
reuniões finais da Cúpula, Obama mostrou-se auto-suficiente. Não
foram alheias a essa atitude do Presidente norte-americano as
posições desprezíveis de alguns dirigentes latino-americanos. Há
alguns dias eu disse que tudo o que for dito ou feito na Cúpula
ia ser conhecido.
Quando respondendo a Jake
expressou que desde 2004 até hoje tinham transcorrido milhares
de anos, foi superficial. Será que devemos esperar tantos anos
para que suspenda seu bloqueio? Não o inventou, mas o fez seu da
mesma forma que mais outros dez presidentes dos Estados Unidos.
Podemos augurar-lhe se continuar por esse caminho um fracasso
seguro como o de todos seus predecessores. Esse não foi o sonho
de Martin Luther King, cujo papel na luta em favor dos direitos
humanos iluminará cada vez mais o caminho do povo
norte-americano.
Vivemos tempos novos. As mudanças
são iniludíveis. Os líderes passam, os povos permanecem. Não
haverá que esperar milhares de anos, apenas oito serão
suficiente, para que num automóvel mais blindado, num
helicóptero mais moderno e num avião mais sofisticado, outro
Presidente dos Estados Unidos, sem dúvida menos inteligente,
prometedor e admirado no mundo que Barack Obama, ocupe esse
inglorioso cargo.
Amanhã teremos mais notícias da
Cúpula.
Fidel Castro Ruz
Abril 21 de 2009
17h34